Fevereiro 2026
Fevereiro de 2026
De uma erupção vulcânica à peste negra
De forma surpreendente, uma erupção vulcânica importante, ocorrida por volta de 1345, terá desencadeado uma sequência de eventos que criou as condições ideais para a propagação rápida da peste negra.
A partir de 1347, uma epidemia terrível abate-se sobre a Europa. Em apenas quatro anos, perto de vinte milhões de pessoas no continente morrem de peste negra. A história da Yersinia pestis, a bactéria responsável pela doença, é relativamente bem conhecida. Em 2022, uma equipa rastreou a sua origem até à sua fonte geográfica, na Ásia Central, no maciço de Tian Shan, situado na fronteira entre a China, o Quirguistão, o Cazaquistão e o Uzbequistão. A partir daí, a doença chegou aos portos italianos a bordo de navios mercantes antes de se propagar por todo o continente. Estima-se que entre 70 % e 80 % das pessoas que contraíam a doença sucumbiam. «A questão que assombra os historiadores há muito tempo é saber porque é que esta pandemia foi tão violenta, rápida, com uma propagação geográfica e uma mortalidade sem precedentes», comenta Isabelle Séguy, investigadora no Ined. Recentemente, Martin Bauch, do Instituto Leibniz para a História e Cultura da Europa de Leste, em Leipzig, na Alemanha, e Ulf Büntgen, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, trouxeram um novo esclarecimento à nossa compreensão deste período sombrio da história do continente. Nos domínios das geociências e da climatologia, é bem sabido que algumas erupções vulcânicas intensas podem perturbar as condições meteorológicas a nível global durante várias estações. A emissão de aerossóis sulfúricos na alta atmosfera contribui para aumentar a reflexão da radiação solar de volta para o espaço e induz um arrefecimento anormal durante algum tempo em certas regiões do planeta. Estas perturbações traduzem-se às vezes em más colheitas. Elaborado em 1375, o Atlas Catalão é um portulano, uma espécie de mapa que indica as rotas marítimas no Mediterrâneo. Pode-se perceber nele a importância das trocas comerciais em toda a região. A figura em verde, no topo do painel, nada mais é do que Djanibeg, o khan da Horda de Ouro na época da Peste Negra. A análise das calotas de gelo na Antártida e na Gronelândia permite descobrir episódios de emissão substancial de aerossóis de origem vulcânica e datá-los. Por exemplo, uma forte concentração de partículas foi detectada em 1257, correspondendo à erupção do vulcão Samalas, na atual Indonésia. No entanto, também se encontra uma assinatura semelhante por volta de 1345, mas a fonte vulcânica ainda está por identificar. Além disso, testemunhos da época afirmaram que se reduziu a visibilidade atmosférica, o que confirmaria a presença de aerossóis no ar. Martin Bauch e Ulf Büntgen sugeriram que uma ou mais erupções precederam a epidemia da Peste Negra, nos anos de 1345 ou 1346. Textos deste período, em França e Itália, mencionam verões excecionalmente frios e húmidos. A produção agrícola era fraca e o continente sofreu ondas de fome simultaneamente em Espanha, França, parte de Itália, Egito e Levante. Esta sincronicidade reforça a ideia de uma causa climática global e não de uma má estação local. Foi, portanto, uma população já enfraquecida que viu a chegada da Yersinia pestis em 1347. Esta situação pode explicar em parte a elevada taxa de mortalidade. Os dois investigadores analisaram a situação em Itália e argumentaram que a produção de cereais no sul de Itália não era suficiente para satisfazer as necessidades das regiões afetadas pela fome. Registos históricos revelam que o preço do trigo naquela altura estava no seu ponto mais alto e que foram tomadas medidas para proibir a exportação de cereais e organizar a sua importação. As repúblicas de Veneza e Génova assinaram então um tratado para pôr fim a um conflito com a Horda de Ouro, o império mongol da época, de modo que o embargo ao cereais do Mar Negro foi levantado em abril de 1347. Este contexto meteorológico e político ajuda a explicar porque a epidemia apareceu pela primeira vez nos principais portos italianos no final de 1347 – pensa-se que a bactéria foi transportada por pulgas que se alimentavam de pó de cereais nos porões dos navios – antes de se espalhar para regiões vizinhas – Veneza autorizando a exportação de cereais para Pádua em março de 1348. Algumas cidades, como Roma e Milão, não foram afetadas pela primeira vaga da epidemia… não tinham importado trigo das costas do Mar Negro. Por outro lado, cidades como Marselha foram afetadas já em dezembro de 1347, provavelmente devido a trocas com navios genoveses. Paradoxalmente, foi na procura de uma solução para a segurança alimentar que as cidades italianas precipitaram a segunda grande epidemia de peste na Europa, sendo a anterior datada do reinado do imperador romano Justiniano, no século VI da nossa era. «Esta epidemia permanece gravada na memória coletiva, revivida para o grande público pela pandemia de Covid-19», conclui Isabelle Séguy.
Fonte: Pour la Science, n.º 580, fevereiro de 2026, pp. 6-7
Sean Bailly (adaptado)
De onde veio o corpo estelar que criou a Lua?
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| Uma visão ficcionada da colisão entre a Terra e Theia, na sequência da qual os detritos deram origem à Lua. |
Graças a análises isotópicas, investigadores mostraram que Théia, o corpo que colidiu com a Terra para dar origem à Lua, se terá formado mais próximo do Sol do que o nosso planeta
Há cerca de 4,5 mil milhões de anos, a história do nosso planeta foi virada do avesso. Quando o Sistema Solar tinha apenas algumas dezenas de milhões de anos, um objeto massivo, chamado Theia, colidiu com a proto-Terra. A Lua nasceu dos destroços desta colisão. Como o corpo foi destruído na colisão, é difícil dizer qual era o seu tamanho, composição ou local de origem. Neste último ponto, foram consideradas várias hipóteses: a de um asteróide proveniente do cinturão entre as órbitas de Marte e a de Júpiter, a de um objeto muito mais distante formado nas regiões geladas para além da órbita de Neptuno ou a de um corpo de uma região muito mais próxima da Terra, ou mesmo numa órbita ainda mais apertada em torno do Sol. Para separar estas hipóteses, Timo Hopp, geoquímico do Instituto Max Planck para Investigação do Sistema Solar na Alemanha, e os seus colegas, estudaram a composição dos isótopos de ferro de várias rochas terrestres e lunares e meteoritos que caíram na Terra. Estes dados fornecem informações sobre o local de formação destes corpos, uma vez que a composição varia consoante a distância ao Sol. Devido ao gradiente de temperatura no disco protoplanetário, os elementos mais voláteis e leves (água, hidrogénio, etc.) só podem condensar-se a grandes distâncias da estrela. Os corpos nascidos longe do Sol acumulam assim mais gelo e materiais leves. Este fenómeno também influencia isótopos do mesmo elemento (que se distinguem pelo número de neutrões): dependendo da temperatura e das condições de irradiação, alguns isótopos são de alguma forma favorecidos em relação a outros na composição dos materiais. A composição isotópica dos corpos celestes preserva assim o vestígio do ambiente onde se formaram. A equipa liderada por Timo Hopp caracterizou a composição isotópica de ferro de quinze rochas terrestres, seis amostras lunares trazidas pelas missões Apollo e condritos enstatita, meteoritos cuja composição é considerada representativa de materiais constituídos na região interior do Sistema Solar, como a Terra. Ao combinar as suas medições com as de outros isótopos, os investigadores compararam os resultados com previsões de cenários teóricos e concluíram que a Theia ter-se-ia formado um pouco mais perto do Sol do que a Terra.
Fonte: Pour ls Science, n.º 580, fevereiro 2026 - p. 8
Évrard-Ouicem Eljaouhari (adaptado)
Os primeiros fogos intencionais
Os vestígios mais antigos do uso do fogo pelo género Homo remontam a mais de 1 milhão de anos. Estes usos eram provavelmente oportunistas, ligados a fogos florestais naturais. Mas, e quanto a um fogo aceso e mantido por um ser humano? Nick Ashton, do University College de Londres, e os seus colegas encontraram num local, no Reino Unido, datado de 415 000 anos, junto aos vestígios de um fogo, estilhaços de pirite, usada para fazer faíscas e rara na região.
Não há oceano de água em Titã
A lua de Saturno é conhecida pelos seus lagos e mares de hidrocarbonetos líquidos, mas sob a sua superfície, os planetologistas sugeriam que Titã também abrigava um oceano de água líquida, à semelhança de Encélado ou Europa. A equipa liderada por Flavio Petricca, do Caltech, nos Estados Unidos, reanalisou os dados da sonda Cassini e mostrou que bolsas de gelo derretido reproduzem melhor a dinâmica da lua do que um oceano subglacial extenso.
Hubble deteta colisões planetárias
Graças aos dados recolhidos pelo telescópio Hubble durante mais de 20 anos, os investigadores observaram duas nuvens de detritos excecionalmente luminosos, entre 2008 e 2023, à volta de Fomalhaut A, um jovem sistema solar situado a 25 anos-luz de nós. Estes detritos correspondem a colisões entre planetésimais, um acontecimento frequente na formação de planetas. Mas a este ritmo - dois em quinze anos - é muito mais elevado que o previsto pelos modelos.
Fonte: Pour la Science, n.º 580 e Science et Avenir, n.º 948 - fevereiro 2026
O que posso observar no céu de fevereiro?
3 - Lua a a 0.23º S de Regulus - 01:43
7 - Auge da chuva de meteoros alfa-Centaurídeas
10 - Lua no apogeu a 409 865 Km da Terra - 16:52
11 - Lua a 1,3º S de Antares - 04:03
19 - Lua a 2,8º S de Saturno - 23:54
24 - Lua a 0.2º S das Plêiades - 02:43
24 - Lua no perigeu a 366 325 Km da Terra - 23:18
26 - Lua a 3,9º N de Mercúrio - 23:08
27 - Lua a 3,5º S de Pólux - 22:12
Fases da Lua em fevereiro
17 - às 12h 01min - nova
24 - às 12h 28min - crescente
24 - às 12h 28min - crescente
01 - às 22h 09min - cheia
09 - às 12h 43min - minguante
Planetas visíveis a olho nu em fevereiro
MERCÚRIO - Pode ser visto a partir do dia 7, ao fim da tarde.
VÉNUS - Durante este mês só pode ser observado a partir do dia 25, ao fim da tarde.
MARTE - Durante todo este mês não está visível.
JÚPITER - Pode ser avistado durante toda a noite até ao amanhecer.
SATURNO - Pode ser avistado a partir do crepúsculo vespertino, até por volta das vinte e uma horas.
Fonte: APP Sky Tonight
(para localizações aproximadas de 41.1756ºN, 8.5493ºW)
| Data | Magnitude | Início | Ponto mais alto | Fim | Tipo da passagem | ||||||
| (mag) | Hora | Alt. | Az. | Hora | Alt. | Az. | Hora | Alt. | Az. | ||
| 1 de fev | -0,7 | 18:44:42 | 10° | O | 18:46:59 | 17° | SO | 18:49:15 | 10° | S | visível |
| 10 de fev | -1,0 | 06:50:12 | 10° | S | 06:52:47 | 21° | SE | 06:55:22 | 10° | E | visível |
Como usar esta grelha
Coluna Data - data da passagem da Estação;
Coluna Brilho/Luminosidade (magnitude) - Luminosidade da Estação (quanto mais negativo for o número maior é o brilho);
Coluna Hora - hora de início, do ponto mais alto e do fim da passagem;
Coluna Altitude - altitude medida em graus tendo o horizonte como ponto de partida 0º;
Coluna Azimute - a direção da Estação tendo o Norte geográfico como ponto de partida.
Coluna Azimute - a direção da Estação tendo o Norte geográfico como ponto de partida.
Fonte: http://www.heavens-above.com/
Fonte: www.nasa.gov
Vídeo do Mês
Artemis II
(Quando necessário, para ativar as legendas automáticas proceder do seguinte modo: no canto inferior direito clicar no símbolo "roda dentada"; abrem-se as Definições; clicar aí e escolher Legendas; depois clicar em Traduzir Automaticamente; finalmente escolher Português na lista.)
Imagem do Mês
M78: refletindo Azul num Mar de Vermelho
No vasto complexo da Nuvem Molecular de Orion, Várias nebulosas azul brilhante são particularmente evidentes. Aqui no centro, mostradas duas das nebulosas de reflexão mais proeminentes – nuvens de poeira iluminadas pela reflexão da luz de estrelas brilhantes embutidas. A nebulosa mais famosa é a M78, no centro desta imagem, e que foi catalogada há mais de 200 anos. No canto superior esquerdo está a menos conhecida NGC 2071. Os astrónomos continuam a estudar estas nebulosas de reflexão para entender melhor como as estrelas internas se formam. O brilho vermelho vem do gás hidrogénio difuso que cobre grande parte do complexo de Órion e que abrange grande parte dessa constelação. Próximas, no complexo maior, que fica a cerca de 1.500 anos-luz de distância, está a Nebulosa de Órion, a Nebulosa Cabeça de Cavalo e o Laço de Barnard — parcialmente visto aqui como a faixa branca no canto superior esquerdo.
Livro do Mês
Sinopse
Muito antes do 11 de Setembro, os Estados Unidos foram atacados por um inimigo invisível. Mísseis começaram a falhar, agentes foram capturados, e os adversários pareciam antecipar todos os seus passos. Era o início de uma nova era: A Guerra Cibernética.
Depois de receber um e-mail anónimo com planos secretos da NATO, o jornalista Matt Potter embarcou numa investigação de duas décadas que o levou das sombras da Guerra Fria ao submundo hacker dos Balcãs, da Rússia ao Pentágono, passando pelo Silicon Valley.
Pelo caminho, cruzou-se com espiões, mercenários digitais, CEOs e hackers lendários - incluindo um sem dedos, ainda hoje foragido. O que descobriu desmonta a versão oficial dos governos: esta não é uma guerra limpa, controlada e discreta. É caótica, perigosa... e já está a moldar o mundo em que vivemos.
Sobre a autor:
Matt Potter escreve e faz apresentações sobre política global, segurança e crime para o Washington Post, a BBC, o Telegraph, o London Evening Standard, o Men’s Journal e o Discovery Channel. Foi repórter da BBC na Rússia, nos Balcãs, nos EUA, no Afeganistão, no Japão, na China e no Sudeste Asiático, e ganhou dois prémios Sony de rádio. Como jornalista, o seu faro para o invulgar fez com que os seus artigos fossem publicados em locais tão diversos como o Daily Telegraph, Golf Monthly, Esquire, Sunday Telegraph, Jack, Maxim, Irish Examiner e Q, e as suas reportagens sobre o tráfico de cocaína na América Latina foram publicadas em russo, espanhol e inglês. Como jornalista em Belgrado, revelou a história do «espião» da NATO que divulgava segredos às forças sérvias na Internet. O seu livro Outlaws Inc, de 2011, foi publicado em quatro idiomas diferentes e em mais de 17 países, e recebeu elogios de vários órgãos de comunicação tão diversos como The Literary Review, BBC5Live, Washington Post, revista Bizarre e Fox News. Por quase duas décadas, escreveu como ghostwriter para líderes mundiais, atores de Hollywood, CEOs e estrelas do rock. Vive em Londres.

















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